19 de set de 2008

O a-ban-do-no

Comentei com amigo sobre o ensaio "O A-ban-do-no", que abre o "Pequeno Manual de Procedimentos", de César Aira. O livro reune ensaios sobre a escrita e o escrever e inicia com uma estranha certeza. De que para criar e se recriar é preciso abandonar a referências. Começa assim:

"No princípio está a renúncia. Dela nasce tudo o que podemos amar em nosso ofício; sem ela nos veremos reduzidos ao velho, ao superado, às misérias do tempo, à cegueira do hábito, às promessas melancólicas da decadência. Trata-se da condição do início: terminar de uma vez, deixar tudo pra traz, de uma vez por todas. A renúncia é nossa utopia, a de todos os artistas, mesmo os mais persistentes. (...)

Uma generalização bem óbvia é a de que todos os escritores, quando jovens, desejamos ser escritores. Não menos óbvio é termos sido todos jovens: fomos o tempo todo em que desejamos ser escritores, em tudo aquilo que nos levou a prender que, para ser escritor, teríamos de encontrar um modo de renunciar a sê-lo. (...) Investigar é entrar no território da invenção, do estilo, do destino.

O que mais devemos abandonar? Que outra coisa devemos calar? De que novos giros de tempo devemos fugir? Chega de perguntar e já estaremos no coração do romanesco, nas ilhas, montanhas, selvas, castelos, trens, barcos, rumo ao acaso. É quase como se voltássemos a ser jovens, e qualquer um sabe, por experiência própria, que todos os jovens quiseram ser escritores."

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