30 de set de 2008

a boa preguiça

Devia haver uma lei que protegesse o sagrado direito de permanecer mais quinze minutos debaixo das cobertas numa manhã fria de inverno. O direito de prolongar a sensação de ter todo o seu corpo aquecido, enquanto o resto do mundo lá fora gela. Assim como gelada está a ponta do seu nariz e o dedo do pé que fugiu dos lençóis.

Essa lei deveria normatizar a seqüência de ruídos perfeita e harmônica que tornariam menos traumático o despertar cotidiano. Nada de canto de passarinhos que dos românticos já nos libertamos. Mas a bagunça e os gritinhos das crianças correndo para a escola deveriam vir depois, jamais antes, do portão de ferro do vizinhos bater com força pela segunda vez.

E, sim, proibir terminantemente o soar de qualquer campainha. É necessário permanecer ainda com olhos fechados até ouvir o último tilintar de chaves na porta da frente.
Só então, na certeza de estar absolutamente sozinho, estender os braços, bocejar, contorcer-se e esticar-se. Enfim, acordar.

sem pressa

De onde vem tanta pressa?
Para onde aponta, ligeiro, teu olhar curioso?
Devagar terias tempo de sentir o inverno e não apenas te agasalhar.
O frio também tem encanto.
De mansinho poderias mesmo deixar-se acompanhar por pés, ao invés de rodas.
Tanto terias a escutar onde hoje só admites falar.
Escuta, então. Conta teus passos ao caminhar.
Estica o braço, espalma a mão e passeie seus dedinhos pelas grades dos portões.
Saia da calçada de vez em quando.
Esqueça a chave de casa, perca a hora, mate o tempo, ganhe histórias.
Desfaça as tranças que vovó prendeu.
Esqueça a maquiagem, que hoje ninguém te obriga a parecer mais séria.

26 de set de 2008

Pecado

Um pecador qualquer. Sou. Daqueles arrebatados. Tenho pecado por impulso. Impensado. Tampouco evitado. Sem volta. Sem culpa. Revolto. A revolta me consome. Porém durmo. Durmo o sono que tomei dos justos. Acordo irritado, sem estômago. Bebo um café. Não. Tomo um café. Forte. E nem por isso faço careta. Devia. Caretas assustam, e quero espantar o remorso e afastar a pena. A sua pena. Aquela que me consome. Trago comigo, no bolso, a outra que me explica. Que me desenha e te escreve. Lê! Encara. Despeja. Desdenha. Eu minto o que for preciso. Por mim. Até pra mim. Desabafo. Respiro. Continuo. O mesmo. Ou diferente. Indiferente. Calado. Mudo. Não mudo. Mas você mudou. Não agora. Antes. Muito antes do pecado.

19 de set de 2008

O a-ban-do-no

Comentei com amigo sobre o ensaio "O A-ban-do-no", que abre o "Pequeno Manual de Procedimentos", de César Aira. O livro reune ensaios sobre a escrita e o escrever e inicia com uma estranha certeza. De que para criar e se recriar é preciso abandonar a referências. Começa assim:

"No princípio está a renúncia. Dela nasce tudo o que podemos amar em nosso ofício; sem ela nos veremos reduzidos ao velho, ao superado, às misérias do tempo, à cegueira do hábito, às promessas melancólicas da decadência. Trata-se da condição do início: terminar de uma vez, deixar tudo pra traz, de uma vez por todas. A renúncia é nossa utopia, a de todos os artistas, mesmo os mais persistentes. (...)

Uma generalização bem óbvia é a de que todos os escritores, quando jovens, desejamos ser escritores. Não menos óbvio é termos sido todos jovens: fomos o tempo todo em que desejamos ser escritores, em tudo aquilo que nos levou a prender que, para ser escritor, teríamos de encontrar um modo de renunciar a sê-lo. (...) Investigar é entrar no território da invenção, do estilo, do destino.

O que mais devemos abandonar? Que outra coisa devemos calar? De que novos giros de tempo devemos fugir? Chega de perguntar e já estaremos no coração do romanesco, nas ilhas, montanhas, selvas, castelos, trens, barcos, rumo ao acaso. É quase como se voltássemos a ser jovens, e qualquer um sabe, por experiência própria, que todos os jovens quiseram ser escritores."

10 de set de 2008

nao quero compromisso...

Disse ao amigo Lionel que não queria compromisso com as letras, queria escrever aqui quando "desse na telha". Mineirinho não leva desaforo pra casa e a resposta dele a minha, malcrida, reproduzo ligeiro.

"Fê, pra vc, ó..

Compromisso a gente nunca
quer, mas de repente ele
encosta na gente
e vai ficando, ficando
como visita de bom papo
como plantinha sorrateira
como só mais um trago
infinita saideira

e o compromisso,
de quem tanto se correu léguas
se achega com carinho
arruma logo o seu canto
de cobertor, livros
quadro na parede
e quem não sabe como chegou
jura que sempre lá esteve

visgo que prende e fica
uns tentam tirar e não conseguem
pois o tal só se vai
quando ele próprio se resolve
e quando se despede
deixa pairando nos móveis
a poeira da saudade"

7 de set de 2008

Setembro começou com incertezas.















Setembro começou com incertezas. Seria coerente um princípio angustiante de mês se dar em junho ou julho. Junto com o inverno, no frio, no escuro, na casa vazia. No tremor insistente do vento naquela fresta mal fechada da janela da frente. No som frio do metal na porcelana. Percebe como o café esfria rápido nesses dias? Combinariam mais assim, essas mal convidadas incertezas. E mais ainda se chovesse.


E apesar de não combinar, esse setembro começou com chuva. Não a chuva leve de gotas brilhantes e finas que refrescam a tarde e o jardim, mas uma chuva insistente, presente e invasiva. Uma chuva deslocada, mal humorada e desesperançada. Será que meu setembro virou julho?

Acordei e não abri os olhos. Sinto a claridade do quarto e prefiro pensar que há sol. E que me aquecerá o rosto. O ar frio arranha-me a pele e força-me a enfrentar esse domingo chuvoso. Temo que, ao passar o dia com essa chuva por companheira, o tempo se esqueca de ir embora, se deixe ficar e com ele fiquem também os minutos e as horas.

Esse abandono me trará todas as incertezas que não combinam comigo nem com setembro. Terei receios. Terei saudades. Uma dúvida. Algum susto. E assustada percorro um caminho conhecido, avisado. Por que, então, insisto?