22 de dez de 2008

What do I care?

and I...
need you pure

Just the man I recognize that night
Through the boy living deep inside those green eyes

11 de dez de 2008

Merece registro

A frase é do Braga, mas quem contou foi a Mariana:
"O fundo do poço sempre tem um alçapão"

10 de dez de 2008

adormeço

Mais do que sonho ou desejo
Sinto-me tonta, enternecida,
quando, na madrugada, tuas mãos
são meu único vestido.

E abraçam, sorrateiras, à chegada da manhã,
Todo o pudor derrubado
ao abrir da porta;
todo o pudor descoberto
a meu pedido.

E com esse manto em mim tecido,
em que descansas pousado,
eu reconheço momentos doados,
inesperados, incertos e vivos

30 de out de 2008

emoticon

me dá seu msn?
eu so tenho icq
te acho no orkut
me procura no facebook
oi. td bem?
oi. e vc
?
legal
trab?
kasa
:-)

Vc acaba de receber um recado

sua caixa de e-mail está lotada
deseja excluir?
sim. nao. ok. voltar
voltar. voltar. voltar. avançar
432 amigos
anna aceitou seu convite
convide amigos de anna
1.506 recados
nenhum recado seu
me manda o tel por depoimento
avatar feliz. avatar emocionado
você foi marcado numa foto
somente amigos podem comentar foto
faça novos amigos
festa! festa! festa! nao perca.
lista amiga. vip.
mande scrap

...

oi.
oi.
td bem?
quanto tempo
vc por aqui
é

22 de out de 2008

A espera

Já disse adeus aos amantes. Anotei endereços de amigos. Arrumei a mochila que basta para carregar pequenas certezas, várias dúvidas e um desejo. Deveria bastar.
Mas o que me perturba o coração nem é bem a viagem. É o momento de embarcar que depende de você.
Sento na beirada da cama, e espero. Levanto. Vou a cozinha. Bebo um pouco de água. Estou com a garganta seca. Olho para o relógio. Chega a madrugada e a campainha não toca. Respiro fundo. Arrisco te buscar.
Penso que você está do lado de fora. Parado. Incapaz de avançar.
Levanto e deixo minha bolsa para traz. Esqueço também a capa de chuva e a carteira. Caminho no corredor e tropeço no tapete. Tenho as chaves na mão. Devo abrir?
Através da porta, imagino que minha sombra te pareça tênue e difusa.

15 de out de 2008

de tudo

De todas as promessas guardo a mais pequena
Aquela que você não fez, aquela que nao disse
E de todos os olhares guardo o mais furtivo
aquele que foi intenso no dia do reencontro

De todos os encontros guardo o mais alegre
aquele que sem memória nos libertou do passado
E de todos os seus passos guardo os vêm a mim
vagarosos e pesados, decididos a me alcançar

De todos os abraços guardo o mais leve
aquele que acompanhou teu sono e o meu despertar
E de todos os seus beijos guardo o último e o primeiro
daquele que foi roubado ainda tenho o gosto na boca

De todos os carinhos guardo o mais bruto
Assim marcada no corpo, sei o quanto posso esperar
De toda sua atenção guardo a que vem de surpresa
aquela que te impõe a mim e me põe desmanchada aos seus pés

De todas as desconfianças guardo nenhuma
Algumas você derrubou, outras nem se importou
e de todo o nosso tempo guardo todos os minutos
são raros e valiosos, até os desperdiçados

E de todos os seus amores guardo os que te fizeram bem
Desses aceito a lembrança, de resto nem quero ouvir
E de todas as perguntas guardo as delicadas
justo as que te revelam e tanto nos aproximam

De todos os seus sorrisos guardo o de ontem
que veio acompanhado de algumas más intençoes
E de todo os seus gestos guardo os que ainda nao fez
àqueles que sem pudores nao resisto de mansinho

De todas as descobertas que venho fazendo e guardando
De todas as resistências que vejo você derrubar
guardo a simples incerteza de ter você se chegando
moço de muitos sorrisos se botando dono do meu olhar
longe de ser poeta
sou pessoa
Há versos que me revelam
outros que me seduzem

30 de set de 2008

a boa preguiça

Devia haver uma lei que protegesse o sagrado direito de permanecer mais quinze minutos debaixo das cobertas numa manhã fria de inverno. O direito de prolongar a sensação de ter todo o seu corpo aquecido, enquanto o resto do mundo lá fora gela. Assim como gelada está a ponta do seu nariz e o dedo do pé que fugiu dos lençóis.

Essa lei deveria normatizar a seqüência de ruídos perfeita e harmônica que tornariam menos traumático o despertar cotidiano. Nada de canto de passarinhos que dos românticos já nos libertamos. Mas a bagunça e os gritinhos das crianças correndo para a escola deveriam vir depois, jamais antes, do portão de ferro do vizinhos bater com força pela segunda vez.

E, sim, proibir terminantemente o soar de qualquer campainha. É necessário permanecer ainda com olhos fechados até ouvir o último tilintar de chaves na porta da frente.
Só então, na certeza de estar absolutamente sozinho, estender os braços, bocejar, contorcer-se e esticar-se. Enfim, acordar.

sem pressa

De onde vem tanta pressa?
Para onde aponta, ligeiro, teu olhar curioso?
Devagar terias tempo de sentir o inverno e não apenas te agasalhar.
O frio também tem encanto.
De mansinho poderias mesmo deixar-se acompanhar por pés, ao invés de rodas.
Tanto terias a escutar onde hoje só admites falar.
Escuta, então. Conta teus passos ao caminhar.
Estica o braço, espalma a mão e passeie seus dedinhos pelas grades dos portões.
Saia da calçada de vez em quando.
Esqueça a chave de casa, perca a hora, mate o tempo, ganhe histórias.
Desfaça as tranças que vovó prendeu.
Esqueça a maquiagem, que hoje ninguém te obriga a parecer mais séria.

26 de set de 2008

Pecado

Um pecador qualquer. Sou. Daqueles arrebatados. Tenho pecado por impulso. Impensado. Tampouco evitado. Sem volta. Sem culpa. Revolto. A revolta me consome. Porém durmo. Durmo o sono que tomei dos justos. Acordo irritado, sem estômago. Bebo um café. Não. Tomo um café. Forte. E nem por isso faço careta. Devia. Caretas assustam, e quero espantar o remorso e afastar a pena. A sua pena. Aquela que me consome. Trago comigo, no bolso, a outra que me explica. Que me desenha e te escreve. Lê! Encara. Despeja. Desdenha. Eu minto o que for preciso. Por mim. Até pra mim. Desabafo. Respiro. Continuo. O mesmo. Ou diferente. Indiferente. Calado. Mudo. Não mudo. Mas você mudou. Não agora. Antes. Muito antes do pecado.

19 de set de 2008

O a-ban-do-no

Comentei com amigo sobre o ensaio "O A-ban-do-no", que abre o "Pequeno Manual de Procedimentos", de César Aira. O livro reune ensaios sobre a escrita e o escrever e inicia com uma estranha certeza. De que para criar e se recriar é preciso abandonar a referências. Começa assim:

"No princípio está a renúncia. Dela nasce tudo o que podemos amar em nosso ofício; sem ela nos veremos reduzidos ao velho, ao superado, às misérias do tempo, à cegueira do hábito, às promessas melancólicas da decadência. Trata-se da condição do início: terminar de uma vez, deixar tudo pra traz, de uma vez por todas. A renúncia é nossa utopia, a de todos os artistas, mesmo os mais persistentes. (...)

Uma generalização bem óbvia é a de que todos os escritores, quando jovens, desejamos ser escritores. Não menos óbvio é termos sido todos jovens: fomos o tempo todo em que desejamos ser escritores, em tudo aquilo que nos levou a prender que, para ser escritor, teríamos de encontrar um modo de renunciar a sê-lo. (...) Investigar é entrar no território da invenção, do estilo, do destino.

O que mais devemos abandonar? Que outra coisa devemos calar? De que novos giros de tempo devemos fugir? Chega de perguntar e já estaremos no coração do romanesco, nas ilhas, montanhas, selvas, castelos, trens, barcos, rumo ao acaso. É quase como se voltássemos a ser jovens, e qualquer um sabe, por experiência própria, que todos os jovens quiseram ser escritores."

10 de set de 2008

nao quero compromisso...

Disse ao amigo Lionel que não queria compromisso com as letras, queria escrever aqui quando "desse na telha". Mineirinho não leva desaforo pra casa e a resposta dele a minha, malcrida, reproduzo ligeiro.

"Fê, pra vc, ó..

Compromisso a gente nunca
quer, mas de repente ele
encosta na gente
e vai ficando, ficando
como visita de bom papo
como plantinha sorrateira
como só mais um trago
infinita saideira

e o compromisso,
de quem tanto se correu léguas
se achega com carinho
arruma logo o seu canto
de cobertor, livros
quadro na parede
e quem não sabe como chegou
jura que sempre lá esteve

visgo que prende e fica
uns tentam tirar e não conseguem
pois o tal só se vai
quando ele próprio se resolve
e quando se despede
deixa pairando nos móveis
a poeira da saudade"

7 de set de 2008

Setembro começou com incertezas.















Setembro começou com incertezas. Seria coerente um princípio angustiante de mês se dar em junho ou julho. Junto com o inverno, no frio, no escuro, na casa vazia. No tremor insistente do vento naquela fresta mal fechada da janela da frente. No som frio do metal na porcelana. Percebe como o café esfria rápido nesses dias? Combinariam mais assim, essas mal convidadas incertezas. E mais ainda se chovesse.


E apesar de não combinar, esse setembro começou com chuva. Não a chuva leve de gotas brilhantes e finas que refrescam a tarde e o jardim, mas uma chuva insistente, presente e invasiva. Uma chuva deslocada, mal humorada e desesperançada. Será que meu setembro virou julho?

Acordei e não abri os olhos. Sinto a claridade do quarto e prefiro pensar que há sol. E que me aquecerá o rosto. O ar frio arranha-me a pele e força-me a enfrentar esse domingo chuvoso. Temo que, ao passar o dia com essa chuva por companheira, o tempo se esqueca de ir embora, se deixe ficar e com ele fiquem também os minutos e as horas.

Esse abandono me trará todas as incertezas que não combinam comigo nem com setembro. Terei receios. Terei saudades. Uma dúvida. Algum susto. E assustada percorro um caminho conhecido, avisado. Por que, então, insisto?

23 de ago de 2008

Pequenas formigas

Pequenas formigas invadem meus domínios. Digo meus não por uma questão territorial minha, ou colonizadora delas. Considero meus domínios as partes da casa que estão sob meus cuidados, responsabilidade, e, por que não, apreço.

A cozinha, há muito, se estabeleceu como território neutro. Uma suíça doméstica onde convivemos sem grandes agressões. É permitido o ir e vir de ambos. Ninguém é picado ou esmagado ao não ser por acidente. E, é claro, conspiramos. Muito.

Passada a fronteira dos azulejos brancos, a guerra perdura. Um exército de formigas kamikazes se lança a morte certa ao atacar qualquer migalha caída na varanda ou na sala. Esmago-as ou afogo-as sem piedade. Até aí era uma guerra limpa: elas são o inimigo, eu o sou para elas. Batalhamos a conquista de territórios que nos interessam para a nossa economia, sobrevivência e bem-estar.

Então percebo que a ganância começou a corroer os alicerces de uma guerra tradicional. Começaram as formigas (começaram elas, por que é sempre o inimigo que começa) a querer conquistar outros territórios. Atacaram a comida dos gatos. E não adiantou colocar no alto nem criar uma barreira d'água. Mato-as diariamente. Isso foi só o começo. Depois veio o hidratante de abacate, o sabonete de chocolate, e o cesto de roupas. Até aí era só um conflito que se ampliava. Até que atacaram o laptop, e me deixaram sem alternativa.

Não, não lançarei a bomba atômica, principalmente por não saber a localização do formigueiro-quartel-general. O recurso que me sobra é pior. E, garanto, pode me fazer mais mal do que a elas. E por menos que eu queira, por mais que eu rejeite, começo uma guerra química. Baygon nelas!

Estou inspirada hoje...

Inspira.
Expira.
Inspira,
expira.
Beijo.

Inspira,
expira,
beijo.
Inspira,
beijo,
expira.
beijo,
inspira,
beijo,
expira,
beijo.

Inspira,
beijo,
expira,
beijo,
inspira,
beijo,
expira.

Beijo, beijo,
inspira.

7 de ago de 2008

Preta Gata

Enquanto digito, kiki se estica o mais que pode para alcançar o teclado. Quer escrever também. Kiki já nem se chama mais assim, agora é Preta, “Preta Gata, muito prazer” diria ela na língua dos gatos. Ah, eu não disse? Kiki, ou melhor, Preta, é uma gata.

Gata pidona. Quer sempre tudo, principalmente colo. Pede comida nova, pede água fresca, pede pra brincar e soube pedir “me leva” quando ficou sozinha na caixa antes cheia de gatinhos siameses.

Vira-lata, preta e fêmea. Irresistível. Seus admiradores apaixonados já passam de dez. Até por tentativa de seqüestro ela passou. Frustada, óbvio. Foi resgatada do fundo da maxibolsa da seqüestradora fashion.

Manhosa, sabe conquistar até os mais reticentes. Até os mais arredios. Até os mais desconfiados. E assim, de mansinho, conquistou uma menina desconfiada. E assim, de mansinho, vai amolecendo o coração de outra menina, que não é desconfiada mas pensa que não sabe amar bichos. Bem, ela pensa que não sabe amar. Isso é o que ela pensa.

Mukeka é o nome do gato



A menina olhava de canto para gatos. Assim meio – ou toda – desconfiada mesmo. Bicho estranho. Não gostava de gatos. Quando criança um arranhara-lhe o braço. Nem lembrava mais da última vez que tentou aproximação. Para si mesma justificava: "Gatos não gostam de mim". E seguiu na certeza de que jamais precisaria se relacionar com um representante dessa espécie.

Agora estava ali, paralisada, coração disparado. As mãos suavam. Dessa vez olhava o gato de frente. Entre os dois, uma parede de vidro, que, encravada no muro amarelo havia se tornado um desafio a ser vencido. Há meses passava em frente àquela casa, caminho de todos os dias, e sempre hesitava.

Entrou. E o que a fez entrar foram os olhos azuis mais intensos que já vira. Nem sabia que um gato podia ter olhos azuis. Ou sabia, como aquelas coisas que são sabidas e esquecidas. É macho? Sim. Quantos meses? Um. Vacinado? Ainda não, mas para adotar precisa vacinar. Ah, tá. Pega no colo. Eu? É, pega.

Pegou.

25 de jul de 2008

Despedida


"E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?


Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.


Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.


A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo."


(Rubem Braga)